Inclusão: Síndrome de Down

Postado em 22/11/2017

Inclusão: Síndrome de Down

O filme brasileiro Colegas, de Marcelo Galvão, que narra a viagem de três jovens com Síndrome de Down em busca de seus sonhos chegou ao cinema. A história é inspiradora e, mais que isso, mostra como o indivíduo com deficiência intelectual pode, sim, ter aspirações e perseguir a sua realização. Sabemos que o primeiro passo nessa direção é dado em casa; o segundo, na escola.

A professora doutora Fernanda Travassos Rodriguez, da PUC-RJ, tem uma vasta experiência com deficiências intelectuais e defende a intervenção precoce - o estímulo praticado em casa pelos pais e auxiliado por profissionais - como fator decisivo no desenvolvimento do indivíduo com Síndrome de Down, que já pode chegar à escola mais preparado para os desafios que estão por vir.

"Sabemos que é um desafio, mas acreditamos que a criança com Síndrome de Down tem condições, sim, de frequentar a escola regular", concorda a fonoaudióloga Viviane Périco, do serviço de inclusão escolar da Apae de São Paulo - é nele que as crianças são auxiliadas no período em que não estão na escola, de forma a facilitar a sua adaptação.

Com a ajuda dessas profissionais e do Atendimento Educacional Especializado para a Deficiência Mental do Ministério da Educação, esclarecemos a seguir as principais dúvidas a respeito da inclusão do aluno com Síndrome de Down.

1- O que é a Síndrome de Down?

A Síndrome de Down, ou Trissomia do cromossomo 21, é considerada um acidente genético causado por diversos fatores de difícil mapeamento. Nela, o impacto físico não é muito pronunciado, embora algumas características, como uma tendência maior à malformação cardíaca e à hipotonia (tônus muscular baixo), possam dificultar a qualidade de vida do indivíduo. Hoje, é comum que as crianças passem por uma cirurgia para corrigir a malformação logo cedo, por isso a expectativa de vida do indivíduo tem aumentado consideravelmente. Não existem graus de Síndrome de Down - ou se tem, ou não. No que diz respeito à esfera intelectual, a pessoa apresenta QI rebaixado, déficit nas habilidades cognitivas e dificuldade na capacidade de abstração. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Brasil existem cerca de 300 mil indivíduos com Síndrome de Down.

2- Como lidar com a criança com Síndrome de Down em casa?

O bebê com Síndrome de Down herda, como qualquer outro, as características de seus pais e, também como qualquer outro, se desenvolverá à medida que o meio favoreça o seu desenvolvimento. O bebê que é estimulado desde cedo apresenta respostas cognitivas e emocionais infinitamente melhores ao longo de sua vida. A professora doutora Fernanda Travassos Rodriguez, grande defensora da intervenção precoce, frisa a importância de a criança ser acompanhada por uma equipe multi e interdisciplinar: "Quando há diversidade de profissionais, as observações são confrontadas, e um auxilia o outro na escolha do melhor tratamento". Os profissionais essenciais para a criança com Síndrome de Down são:

Pediatra: Ele verifica a presença de comorbidades (doenças paralelas) e o desenvolvimento geral da criança.

Fonoaudiólogo e/ou terapeuta ocupacional: É ele quem vai auxiliar com as dificuldades de motricidade oral decorrentes da flacidez muscular. A criança que fortalece a musculatura da face aprende a falar com mais facilidade.

Fisioterapeuta: Também colabora com a estimulação cognitiva e com o desenvolvimento muscular da criança.

Psicólogo e/ou psicopedagogo: Ele ensina aos pais as brincadeiras ideias para cada fase do bebê e atende a família como um todo - lembrando-se que o impacto de uma criança com deficiência na família é natural e, quanto mais trabalhado do ponto de vista emocional, melhor para todos.

3- Como lidar com a criança com Síndrome de Down na escola?

O currículo deve ser flexibilizado para a criança com Síndrome de Down, que pode ou não ser acompanhada por um mediador na sala de aula. O aluno também faz provas, mas a sua avaliação é diferente: o professor acompanha as etapas de sua evolução ao longo do ano, sempre o comparando com ele mesmo, dentro de suas potencialidades. Há escolas que preparam portfólios retratando essa evolução. "É importante lembrar que existe, sim, uma deficiência intelectual. O professor deve levar em consideração que a criança não possui um equipamento biológico capaz de competir com os outros alunos de sua idade", enfatiza a psicóloga Fernanda Travassos Rodriguez. Assim como ocorre com crianças com desenvolvimento cognitivo típico, o sistema educacional mais adequado varia conforme o indivíduo, mas escolas com bom histórico na gestão da inclusão são as mais recomendadas.

4- Como deve ser a relação dos pais com a escola?

Como acontece com qualquer outro aluno, o engajamento dos pais no universo escolar beneficia o desenvolvimento da criança com Síndrome de Down. "Os pais devem ser parceiros da escola, levando em consideração que não é possível prever de antemão o quanto e como a criança irá aprender", observa Viviane Périco da APAE de São Paulo. Fernanda Travasso Rodriguez acrescenta: "O que os pais devem procurar? Bons professores, bons auxiliares de classe e um ambiente seguro - enfim, o que se deseja para todo aluno". Acompanhando de perto a adaptação e a evolução do filho, os pais entendem o que se passa em sala de aula e amenizam o seu medo de que haja bullying - que os colegas persigam o seu filho por ele ser diferente. Felizmente, os especialistas afirmam sem hesitação que esse problema é raro: em geral, a criança com Síndrome de Down adapta-se muito bem ao meio escolar.

5- Como pode ser a convivência com os colegas?

"A criança com Síndrome de Down não está lá para ser tolerada, mas para ser uma amiga como qualquer outra", ressalta a psicóloga Fernanda Travassos Rodriguez. O esperado é que ela seja enturmada nas atividades da classe, convidada a eventos na casa dos amiguinhos e, enfim, brinque e crie confusões como qualquer criança da sua idade. Em geral, tudo caminha bem, pois a sociabilidade dos pequenos com Síndrome de Down é ótima. E, como as crianças costumam ter menos preconceito que os adultos, elas se envolvem com o coleguinha com deficiência sem grandes questionamentos. Especialmente se os pais delas, em casa, tratam a inclusão como algo natural e bem-vindo.

6- Quais os benefícios da inclusão?

Para a criança com Síndrome de Down, ir à escola é exercer o direito à educação previsto pela Constituição Brasileira - ou seja, o direito que toda criança tem. Na escola, ela desenvolverá as suas potencialidades e, um dia, poderá seguir uma profissão. Além disso, o contato com a garotada da mesma idade é benéfico para todos. "Eu diria que o ganho é mútuo, pois as crianças que estudaram em escolas inclusivas certamente se tonarão adultos mais tolerantes", acredita a fonoaudióloga Viviane Périco. A psicóloga Fernanda Travassos Rodriguez levanta, ainda, outro ponto: "Conviver com o diferente desperta na gente o desejo do autoconhecimento. Se meu amiguinho tem esse ou aquele limite, quais são as minhas limitações? Como posso melhorar?".

7- Quais as perspectivas para o futuro?

Foi-se o tempo em que a Síndrome de Down era vista como uma espécie de condenação: o indivíduo sempre dependeria de sua família para viver. Hoje, não só a sua expectativa de vida é alta, como os jovens com Síndrome de Down que frequentam a escola podem ser encaminhados a programas de qualificação. "Acreditamos que eles podem, sim, conquistar a sua independência financeira", afirma Viviane Périco, explicando que a Apae de São Paulo, por exemplo, colabora com a chamada Lei de Cotas (Lei nº 8.213/91) qualificando profissionais com deficiência intelectual para empresas parceiras. A iniciativa faz parte do Serviço de Qualificação e Inclusão Profissional da instituição.

 

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